Shenia Karlsson

Afetos e relações raciais: quando o “suposto” afeto ofusca o racismo

Por Shenia Karlsson e Claudina Damacesno Ozório

Querida Branca,

Estou muito cansada hoje. Apesar disso, a necessidade de te escrever me veio. Escrever é um processo criativo que demanda esforço mental e lucidez para articular as ideias. Embora tudo isso esteja ofuscado agora, pode ser esse um modo de esvaziar-me do cansaço e dar sentido a tantos sentimentos misturados. Temos tido dias difíceis, com situações complexas, mas nada novo para nós, negras e negros. O novo, para mim, parece ser o des-cobrimento do racismo no Brasil. Aqui, falo como uma pessoa de pele preta, que bateu várias vezes na porta de vidro que existia entre mim e você, que sorria assim que me via. Lembro sempre de você e de todas as outras colegas em muitas situações. Mas algumas situações foram mais marcantes do que outras. Foram várias situações de racismo que passei, com você ao meu lado, me olhando, sorrindo, sempre delicada, educada e sutilmente me aconselhava a melhorar, pois era preciso ter postura.

Lembro bem dos seus conselhos e aparente cuidado para comigo, embora meu desconforto e sentimento de fracasso nunca passasse. Também me lembro de, certa vez, quando você me disse que eu tinha problemas de autoestima. Sabe, durante muito tempo eu acreditei no que você me dizia. Afinal, você era tão legal que, na frente das outras pessoas, até me perguntava como eu estava e me tratava bem. Apesar de que, quando estávamos somente nós duas, você estava ocupada demais no celular, eu preferia ficar quieta para não te atrapalhar…mas faz parte no mundo tecnológico. Quando veio essa onda de violência, vi você postar sobre antifascismo.

Achei legal vê-la com a plaquinha, mas confesso que estranhei, pois nunca tinha visto você se posicionar, especialmente nas vezes em que eu sofri racismo, na sua frente. Ah! Tenho que te contar, antes que eu me esqueça. Depois de um tempo, comecei a estudar sobre racismo e acredita que aquelas situações em que você estava comigo era tudo racismo?!? E você, toda desconstruidona nem pra me dizer. Mas que bom que você agora é antirracista também neh! Vi no seu post outro dia. Confesso que fiquei um pouco confusa, porque quando te falei que ‘nossos passos vem de longe’, você me disse que era a melhor frase de Simone de Beauvoir. E me disse que era também antirracista reversa, pois é contra toda forma de opressão e violência. Fiquei confusa de novo, mas não aprofundamos o tema, porque seu táxi estava chegando. Mas tudo bem, agora que você é antirracista, você já sabe um monte de coisas sobre gente preta e já sabe como se posicionar em situações de racismo. Se tiver dúvidas, basta dá um Google, não precisa nem encher meu whatsapp de mensagens recheadas de angústia. Por falar em mensagem, agora podemos ir a festas juntas, porque tirei o rastafári gigante, e alisei o cabelo, tá lindo! Como você sempre dizia que eu não ficava arrumada com meu blackpower ou tranças, pois pareciam sujos, resolvi dar uma repaginada e ficar mais apresentável. Você queria o melhor pra mim, eu sei, pois sempre estava olhando se minhas roupas, unhas e sapatos estavam adequados para almoçar contigo, especialmente quando as outras não estavam. Uma pena que para ir a festas juntas, a gente nunca conseguia acertar a agenda. Bom, agora tenho cabelo apresentável e consegui um trabalho, estou ganhando um dinheirinho e já posso ser convidada para ir à sua festa de aniversário. Nossa, já é no mês que vem. Como o tempo passa néh!?! Ai amiga, preciso te ver para colocar o papo em dia. Ir ao shopping talvez, fazer umas comprinhas. Prometo que vou seguir suas dicas de moda dessa vez e não vou comprar mais roupas tão coloridas, berrantes como dizia você hahaha.

E vamos poder comer naquele restaurante central, não naquele escondidinho perto do banheiro. Agora posso pagar. Que bom neh! Agora posso ter sua companhia!
Bjs! Racismo afetivo.


Publicado no Portal Geledés

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