Shenia Karlsson

papo da semana: Afromaternidade

“Dar a luz” é uma expressão poética, romântica, porém carregada de responsabilidade, não é mesmo? Muitas mulheres sentem o peso dessa expressão e com isso surgem inseguranças, medos, anseios, idealizações. A maternidade, em certa medida, é uma relação narcísica, tem muito EU envolvido nessa história, não tem jeito, mas isso é assunto para outro texto. Nasce a criança e também a mãe, não importa se é no mesmo momento ou no processo. E tem mãe que não nasce, acredite. Entretanto, eu gostaria de ressaltar um componente que pode fazer toda a diferença, a raça. Ser mãe negra e ter filhos/es negros/es requer desafios extras. É doloroso ter a consciência e saber que sociedades estruturalmente racistas não acolhem nossas crias e podem impor obstáculos e sofrimentos.

O professor Achille Mbembe conceitua como sociedades de inimizade estruturas as quais elegem inimigos a serem combatidos, aniquilados e mortos, tanto fisicamente quanto subjetivamente. Corpos negros têm sido alvos preferidos. Como ficam então as mães negras? Seu pré-natal? O parto? A inserção dos filhos na escola? A entrega de seus filhos à uma sociedade hostil com corpos negros? São muitas histórias, como diz Nah Dove, teórica do Mulherismo Africana ao enfatizar a cultura como a maior arma de resistência que uma mãe negra pode lançar mão. A autora discorre sobre o resgate das tradições Maáticas baseadas em verdade, justiça, equilíbrio, harmonia, ordem e reciprocidade.

Mas, como criar filhos com esses princípios em sociedades altamente perversas? Para tanto, trago a visão de bell hooks sobre o amor como antídoto. O amor, para a autora, deve ser uma prática constante, um exercício de responsabilidade, cuidado, afeto, reconhecimento, respeito, diálogo e confiança, valores esses que devemos praticar e passar aos nossos filhos. A política do amor é a chave contra a política da inimizade, a prática do amor deve ser compartilhada coletivamente, do micro ao macro. Na filosofia africana os filhos são responsabilidade de toda uma sociedade, não só das mães, da família. Que possamos nos inspirar na sabedoria da Filosofia Africana ancestral como forma de cura e a propagação do amor como espírito de coletividade.

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