Shenia Karlsson

Codependência afetiva

Uma lâmpada vermelha acendeu e as mulheres de todo o Brasil ficaram chateadas com a Carla no programa BBB21. A angústia coletiva ao assistir uma “mulher padrão” praticamente mendigar atenção, humilhar-se e abrir mão da pouca dignidade que lhe resta em busca do afeto de um “homem padrão” muito pouco investido afetivamente, causou indignação, né manas? Elas não perdoaram. Vamos levar em consideração que este caso aconteceu num ambiente de reality show e pode ser que a Carla mude rapidamente a sua visão “dentro do jogo”.

Porém, sabemos bem que essa realidade está mais próxima de nós do que imaginamos. Em tempos de “feminismos” o resgate da autoestima e do autoamor tornaram-se fundamentais à experiência de um feminino saudável num país em que a cada poucos minutos uma mulher morre ou sofre alguma violência. Ser mulher hoje é um ato político e requer esforço. “Temos que erradicar lógicas opressoras que tanto nos aprisiona e nos submete”, bradam as feministas. Contudo, o feminismo, como qualquer movimento político, tem em sua base ideologias que nem sempre são capazes de serem transformadas em atitudes e comportamentos.
Existem dimensões psicológicas profundas que atravessam as relações amorosas e cada sujeito irá lidar com a situação de forma diferente. Isso porque suas experiências prévias e como ele se construiu será fator determinante em sua vivência numa relação amorosa.
Mulheres como a Carla são muito frequentes nos consultórios psicológicos, eu por exemplo as atendo diariamente. Elas demonstram comportamentos destrutivos e ligam-se a supostos parceiros a fim de repetir insconscientemente experiências de rejeição. Acreditem, existe prazer na dor. A codependência é uma espécie de síndrome emocional, uma distorção que impede algumas mulheres de estabelecer relações amorosas saudáveis e geralmente têm como base sentimentos conflituosos.

Cada um de nós introjeta de forma única como recebemos e oferecemos o amor, seja de forma real ou idealizada. O codependente idealiza a salvação, ignora os próprios sentimentos e necessidades em detrimento do escolhido. O foco é a satisfação do outro e nunca sua própria satisfação e felicidade. Como se trata de uma distorção, esse comportamento e postura gera autodestruição criando uma situação de prisão, abre-se mão da própria humanidade e se auto reduz a um objeto de plena satisfação do outro. A pouca atenção que recebe serve de combustível para a manutenção da relação tóxica estabelecida.
Mas, por que ainda hoje é possível presenciar essas situações? Não há uma resposta precisa para dar conta da amplitude dessa discussão. Entretanto, penso ser fundamental a construção de uma rede de afeto entre as mulheres em que possa ser possível o cuidado e a proteção entre nós. Ouçam suas amigas, a família, quem avisa amigo é, quem vê de fora vê melhor, são os ditados dos mais velhos e ainda muito válidos. Cuidem-se coletivamente

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