Shenia Karlsson

sheniakarlsson

Sejam bem-vindxs!

Minha trajetória profissional deu-se primordialmente a partir de minha vivência enquanto corpo-mulher-negra. Confesso que é um lugar muito complexo, cheio de significados e significantes. É deste lugar social que estilhaço a máscara do silenciamento, explicitada por Grada Kilomba e denuncio minha existência. Minha existência é a existência de muitas. Como dizia nossa querida Lélia González : “ o lixo vai falar, e tudo bem”. E quando Fanon afirma : (…) falar é existir absolutamente para o outro(…)” ele tem razão. Posso dizer que mulheres negras e racializadas são lixos preciosos, pois Angela Davis já apontava em sua obra que são elas a base da sociedade numa pirâmide perversa chamada capitalismo, inaugurado sobretudo, pela exploração de corpos pretos.

No início de meu percurso, deparei-me com a pouca representatividade de mulheres negras em determinados espaços políticos e sociais. Somos poucas ocupando cargos estratégicos e de importância, especialmente lugares de saber intelectual, e ainda associadas à subalternidade nas relações de trabalho e de poder. E na Psicologia não foi diferente. Considero que nossa luta é romper com os muros de vidro, embora invisíveis, segregadores e interditos. Cabe a nós, mulheres negras, desconstruir as “imagens de controle”, conceito tão bem abordado por Patricia Hill Collins e romper com lógicas opressoras. Nossos corpos merecem destinos forjado por nós, não pelo sistema.

Contudo minha a maior preocupação na época foi: quem cuida dessas mulheres negras? Elas são ouvidas em sua completude? Lugar de fala requer lugar de escuta, não é mesmo?! O principal instrumento de muitos campos da psicologia e da psicanálise é a associação livre, ou seja, a fala. Como corpos historicamente silenciados encontram espaço seguro para falar de suas dores? As lógicas sociais e opressoras atravessam a clínica psicológica?
Em meu exercício da psicologia ao longo dos últimos anos, constatei a carência de uma intervenção psicoterapêutica que atendesse demandas específicas das mulheres negras. A partir desta constatação, percebi que podia ir além. Refleti sobre a necessidade de se pensar uma psicologia crítica e de uma prática que busca acima de tudo compreender os processos de construção de negros na sociedade e das perturbações oriundas de lógicas opressoras. Sendo assim desenvolvi uma metodologia de intervenção baseada em práticas psicológicas, ancestralidade, processos históricos da população da diáspora africana e cultura negra. Após anos de prática clínica em comunidades do Rio de Janeiro, minha cidade de origem, dei um mergulho profundo em busca de uma psicologia que pudesse me auxiliar nessa empreitada, desenvolvi uma metodologia utilizando a escuta apurada sobre experiências que só atravessam a mulher negra provando que a identidade racial,a representatividade e a capacitação de profissionais treinados e engajados na pesquisa e estudos são fundamentais na construção do bem-estar e da saúde mental do sujeito negro.

A culminância dessa experimentação deu-se na criação do Papo Preta, projeto terapêutico criado em 2015, como um lugar de escuta afetiva, troca de experiências e construção de estratégias de enfrentamento e fortalecimento da autoestima, propiciando o empoderamento da mulher negra. A adesão foi imediata, estendendo-se assim para toda comunidade negra.
Desde 2017, minha jornada intensificou-se e passei a atuar em Lisboa, Portugal. O diferencial de minha atuação enquanto profissional de Psicologia preocupada com questões extremamente relevantes, contudo, pouco exploradas, rendeu um convite super especial em 2018 para atuar como Diretora do Departamento de Sororidade e Entreajuda no INMUNE- Instituto da Mulher Negra de Portugal, e lá, me dedico a construção de projetos voltados para saúde e bem estar de mulheres negras portuguesas, africanas e brasileiras.
Na Europa, tenho ampliado o meu campo de atuação e a intercalar minha prática clínica com outras vertentes que considero, como profissional da psicologia, fundamentais para a promoção da diversidade e da representatividade. Além de psicóloga, sou empresária, investigadora, palestrante e docente na Casa Preta, plataforma ao qual ministro cursos sobre psicanálise e racismo.

Atualmente, como psicóloga especialista em diversidade e inclusão, ministro cursos e workshops e presto consultorias para implementação de programas de Diversidade e Inclusão para empresas e projetos acadêmicos. Em 2019 fui convidada a integrar a equipe de uma pesquisa intitulada Mulheres do Atlântico Marrom realizada na Universidade de Exeter, no Reino Unido. Hoje, minha atividade clínica ampliou, atendo brasileiros, portugueses negros e africanos na América Latina, Europa, América do Norte e África. Com o advento das plataformas online, tenho a possibilidade de prestar meus serviços a pessoas que estão longe em termos de distância mas próximas pelas questões que nos atravessam. Dedico-me, especialmente, ao atendimento e terapias para homens e mulheres negros e racializados, casais homoafetivos, casais interraciais, terapia ou aconselhamento para famílias que adotam crianças negras e atendimento especializado para toda a comunidade LGBTQI+.
Colaboro regularmente com a imprensa tradicional e alternativa através de entrevistas em programas de TV, rádio e artigos de opinião. Além disso, participo de eventos, conferências, congressos internacionais e projetos de cunho social.

E, agora, nesta plataforma disponibilizarei conteúdos e artigos com o objetivo de democratizar o acesso à informação de uma psicologia decolonial, resultado da minha vivência pessoal, da minha prática profissional e da minha trajetória acadêmica.

Sejam todos bem-vindxs!

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